Terapia do Luto

O trabalho do luto permitir que a pessoa enlutada passe de vítima para sobrevivente, que não apenas passe pelo luto, mas cresça por meio dele, que, como sobrevivente, não apenas sobreviva, mas reaprenda a vive

Algumas perguntas frequentes

O que é luto?

Um processo que decorre do “rompimento” de um vínculo, de um laço afetivo.

Coloco a palavra rompimento entre aspas porque o luto é um tempo de reconstrução da identidade e da vida.

Um tempo de descoberta de uma forma de restabelecer o vínculo rompido, de desenvolver a ideia de que, na verdade, o vínculo é contínuo por meio do eterno sentido e amor daquela pessoa na vida de quem ficou.

Como o luto deve ser vivenciado ?

Há várias formas, já que o luto de cada pessoa é singular e não obedece a um padrão.

Eu penso na elaboração do luto como uma forma de reorganizar o sistema familiar, pois o luto não é feito apenas de choro e lamentação.

Também encorajo o enlutado a viver cada fase desse processo de forma coerente, expressando seus sentimentos, pensamentos e emoções e adaptando-se à nova realidade por meio de autoconhecimento e contínuo aprendizado.

São comuns os sentimentos de dor, impotência, raiva, angústia, medo, tristeza, revolta, mas também de lampejos de alegria.

O momento mais crítico do luto são os primeiros meses ?

O luto é um processo, e não um estado ou um evento isolado. Isso é muito importante.

Não é um conjunto de sintomas que surgem depois de uma perda e que tendem a desaparecer com o tempo.

Os primeiros meses nem sempre são aqueles em que a tristeza profunda predomina porque muitas vezes “a ficha não caiu”, a rotina ainda não se estabeleceu mostrando claramente a ausência, a saudade, a falta.

Essa tristeza precisa ser manejada adequadamente, por intermédio de recursos internos ou externos, a qualquer momento, independentemente de quanto tempo se passou desde a morte.

Quais são as fases do luto ?

O luto é um processo intenso, com uma sucessão de fases que se mesclam e se substituem.

Na primeira fase (choque e entorpecimento), as pessoas têm dificuldade em compreender e acreditar que a morte tenha acontecido – é como se fosse um

pesadelo –, apesar de os momentos de desespero e dor se intercalarem.

Na segunda fase (anseio e busca), elas podem se recusar a reconhecer a perda e tentar fazer as coisas voltarem a ser como eram antes da morte.

Podem procurar o falecido, tentando “trazê-lo de volta” ao se recusar a permitir, por exemplo, que os pertences dele sejam removidos.

Não quero dizer com isso que os pertences devem ser removidos de um momento para outro.

As reações (fases) têm de ser respeitadas.

Quando o indivíduo percebe que o retorno da pessoa, com vida, é impossível, os sentimentos de frustração e raiva podem vir à tona.

Nessa fase (desorganização e desespero), a pessoa se distrai facilmente, tem dificuldade para se concentrar e pode tornar-se profundamente triste.

É quando o enlutado se dá conta de que o falecido não está voltando, e esse reconhecimento deixa alguns indivíduos confusos, com medo e incertos sobre seu futuro.

Na última fase (reorganização e recuperação), o enlutado percebe que consegue tocar a vida, apesar da saudade.

Quanto tempo dura o luto ?

Varia muito, pois depende de vários fatores, como a qualidade da relação da pessoa com o falecido, da personalidade e da idade do enlutado e da forma da morte.

Costumo dizer que o luto geralmente dura um ano, justamente porque nesse período a pessoa poderá elaborar a própria situação e se reorganizar psiquicamente, bem como reinvestir seu afeto e ressignificar a vida, uma vez que atravessa pela primeira vez as datas significativas sem a pessoa perdida.

É verdade que com a morte vem o sentimento de culpa ?

Algumas pessoas tendem a “personificar” a morte e procuram alguém para culpar.

Existe também a culpa pela sobrevivência, ou seja, a pessoa pode se sentir culpada por ter sobrevivido.

Algumas mulheres ficam com raiva do marido falecido por não ter ido procurar o médico quando os primeiros sinais e sintomas da doença fatal começaram, ao passo que outras podem culpar Deus ou qualquer outra entidade de natureza extracorpórea pela morte.

Como as pessoas devem pensar e agir para não sentir essa culpa ?

Muitas vezes, dizer para a pessoa “não se sinta culpada, você não é culpada” não será suficiente.

Em geral, podemos descobrir a razão mais profunda desse sentimento de culpa ouvindo o enlutado com bastante atenção.

Frequentemente as pessoas se culpam por ressentimentos verdadeiros com o falecido.

Quem, num momento de raiva, já não desejou que alguém desaparecesse, sumisse do mapa? Então, é importante ouvir de maneira apurada, sem censurar, sem ter a pretensão de fazer a pessoa se sentir “ótima” a todo custo, sem tentar fazer a pessoa se livrar, de um momento para outro, do sentimento que ela experimenta.

Como as pessoas próximas aos enlutados devem agir ?

Cada pessoa sofre de um jeito e fica enlutada de uma forma muito particular.

A verdade é que, por mais que já tenhamos vivido a dor de nossas perdas, precisamos de humildade para reconhecer que o outro sentirá a própria dor de uma forma diversa da nossa. Comentários como: “eu sei muito bem o que você está passando”, “você vai conseguir porque é forte e guerreiro”, “pare de chorar, você precisa ficar bem para sua família”, “seu filho não gostaria de vê-lo sofrendo” são inadequados e as pessoas de luto podem sentir-se profundamente angustiadas por ouvir essas frases e pensar que devem aceitá-las como verdades absolutas. Devemos oferecer nosso apoio, nossa atenção e escuta amorosa e paciente, sem lhes dizer o que fazer, sem lhes dar conselhos fáceis e receitas prontas. Não adiantará nada tentarmos abafar a dor.

A dor ficará soterrada e precisará vir à tona em algum momento.

As pessoas precisam de tempo para que voltem a acreditar no valor da vida, do amor, da solidariedade. Quem passa pelo luto precisa de uma rede de apoio. Sempre pergunto ao enlutado com quem ele pode contar.

Sugiro que ponha nomes e telefones num papel e o carregue consigo.

Há também a ajuda de profissionais especializados, a ajuda de organizações voltadas para o suporte e o apoio a pessoas enlutadas e a ajuda espiritual.

Qual é o melhor momento para decidir sobre o que fazer com as roupas e outros pertences do morto ?

Por desconhecimento e pouca educação para a morte, muitas famílias na nossa sociedade têm doado os pertences de seus entes queridos falecidos e lamentam, após o ato, quase sempre irrefletido, por terem se desfeito de tudo tão depressa.

Assim, agir por impulso, nos primeiros momentos, pode não ser a melhor opção.

O importante é pensar com cuidado e calma a respeito dessas questões.

Muitas vezes ajudo meus pacientes a decidir quando é o momento, o que e quando fazer com os pertences de seu ente querido.

Tomar remédios, como antidepressivos, é indicado durante o período de luto?

O luto é um processo normal, a tristeza não deve ser medicalizada.

O enlutado precisará lidar com emoções dolorosas e que oscilam.

Elas tendem a passar com o tempo, à medida que novos significados são construídos e o cotidiano é reorganizado.

A medicação psiquiátrica com antidepressivos e/ou ansiolíticos é indicada para casos específicos, quando há quadros psiquiátricos que acompanham o processo, como transtornos de ansiedade ou depressão clínica.

sentada de luto

A Terapia do Luto é um trabalho para pessoas que perderam pessoas importantes em sua vida.

O foco da terapia é fazer com que a pessoa supere a dor provocada pela morte da pessoa querida para que consiga seguir em frente em sua vida e ser feliz.